Para entender 2011. E o que virá
30-12-11
Fonte/Autora: Por Tatiana de Mello Dias/Link, publicado no Blog Inteligência Competitiva e Gestão.
O mundo está a mudar. Rápido. É impossível prever os impactos das mudanças que a tecnologia está a trazer à sociedade, mas o Link estampou nas suas páginas algumas visões sobre temas corriqueiros – e outros nem tanto – que arriscam entender o que aconteceu em 2011 e para onde a humanidade vai caminhar.
Impossível passar por 2011 sem ouvir falar de alguns termos. Ou deparar-se com algumas figuras – quem aí passou batido pelo Angry Birds? "Hoje em dia, o Angry Birds é jogado em casa e no caminho até o trabalho, ao ponto de existir agora um aplicativo para controlar o vício no jogo. Existe um poder de sedução inegável na simpática estética do Angry Birds. Além disso, o jogo é um notável exemplo do Graal de todos os desenvolvedores de games: é ao mesmo tempo fácil de jogar e difícil de dominar, receita infalível para encontrar o ouro no fim do arco-íris. Essa foi a regra seguida por Nolan Bushnell, fundador da Atari, quando ele produziu em massa o jogo Pong na década de 70. E vale até hoje",escreveu Harold Goldberg, autor de All your base are belong to us. De Super Mario Galaxy à Prince of Persia, passando, claro, pelo Angry Birds, "discretamente, os jogos invadiram a cultura pop no seio da família", afirmou .
A maneira como o conteúdo é replicado e vira febre rapidamente num ambiente em rede foi o tema do artigo de James Gleick, da Revista Smithsonian. Ele recorreu à história e à biologia para explicar a propagação de algo que conhecemos bem: o meme."Durante a maior parte de nossa história biológica os memes existiram brevemente; a sua principal forma de transmissão era o que chamamos de "boca a boca". Depois, eles conseguiram aderir a substâncias sólidas: placas de argila, paredes nas cavernas, folhas de papel. Eles alcançam a longevidade através das nossas canetas, rotativas, fitas e discos, torres de transmissão, redes digitais. São histórias e habilidades, lendas e modas. Copiamo-os, uma pessoa de cada vez", escreveu Gleick. "'Um meme', diz o filósofo Daniel Dennett, "é um pacote de informação com atitude". A rima e o ritmo ajudam as pessoas a lembrarem-se de trechos de um texto. Ou: a rima e o ritmo ajudam trechos de um texto a serem lembrados. Rima e ritmo são qualidades que facilitam a sobrevivência de um meme, assim como força e velocidade facilitam a de um animal. A linguagem padronizada traz em si uma vantagem evolutiva. Rima, ritmo e sentido – pois o sentido também é padronização. A linguagem serviu como o primeiro catalisador da cultura. Ela substitui a imitação, transmitindo conhecimento por meio da abstração e da codificação.
Os relacionamentos
Em março, o Link publicou o tratado do "curtir". O que significa o gesto mínimo? "O joinha, em toda sua simplicidade, virou a partícula elementar da autopublicação". Mas quais são as regras mínimas dessa nova forma de interação social, que começou no Facebook e se estendeu para a web?
Três meses depois, o escritor americano Jonathan Franzen cravou nas páginas do Link: Curtir é covardia. "Todos saberão citar o seu favorito dentro dos nauseabundos exemplos da mercantilização do amor. (...) A mensagem, em cada um dos casos, é bastante clara: se você ama alguém, compre alguma coisa. Um fenômeno relacionado a esse é a transformação do verbo "curtir" ("like", em inglês) que, graças ao Facebook, deixa de ser um estado de espírito e passa a ser um ato que executamos com o mouse – deixa de ser um sentimento para virar uma opção de consumo. E curtir é, no geral, o substituto que a cultura comercial oferece para o ato de amar. A característica mais notável de todos os produtos de consumo – e principalmente dos dispositivos eletrônicos e aplicativos – é o fato de terem sido projetados para serem imensamente curtíveis. Esta é, na verdade, a definição de um produto de consumo, em contraste com o produto que é apenas aquilo que é e cujos fabricantes não estão concentrados na possibilidade de o curtirmos ou não".
Mais para frente, escreveram: "toda grande mudança social é correspondida por um efeito contrário". Tom Rachman, do The International Herald Tribune, escreveu no Link sua aposta para a próxima década: o surgimento de uma geração de "românticos offline", que rejeitam as mudanças do mundo conectado. "Esses saudosistas do mundo desconectado criticarão aquilo que consideram ser a degradação da consciência humana: a capacidade cada vez menor de prestar atenção, a dificuldade de concentração, o zumbido da excitação digital invadindo a vigília".
As apostas
A geração offline é uma das apostas para o futuro. Há quem pense num futuro... sem empregos. Para o escritor Douglas Rushkoff, a tecnologia deve libertar do emprego. Ao mesmo tempo em que esgota os postos de trabalho – substituindo pessoas por robôs – a tecnologia criará um novo tipo de economia, mais próxima da troca e distante do universo capitalista do lucro a qualquer custo. "As novas tecnologias estão causando grandes estragos nas cifras de emprego – dos sistemas de cobrança eletrônica de pedágio a automóveis sem motoristas controlados pelo Google, que tornam os taxistas obsoletos. Mas ainda poderia haver uma outra possibilidade – algo que realmente não poderíamos imaginar para nós até a era digital. Como um pioneiro da realidade virtual, o músico e cientista da computação Jaron Lanier, assinalou recentemente que não precisamos mais de coisas para ganhar dinheiro. Podemos trocar produtos baseados em informação", escreveu Rushkoff.
Outras apostas do especialistas que escreveram nas páginas do Link passam por um tema que permeou 2011: controle. Primeiro numa esfera pública. O escritor Evgeny Morozov analisou a história da internet – do seu princípio, idealizada por visionários utópicos e libertários, e de seu estado atual, em que a falta de regulação tem deixado espaço para a (nem sempre benéfica) autorregulação das empresas. A visão utópica da internet como um espaço compartilhado de modo a aumentar ao máximo o bem-estar coletivo é um bom modelo para se trabalhar. Mas eles foram atraídos pela possibilidade de 'grandes lucros' e viram-se apanhados na armadilha do discurso da 'autonomia e poder pessoal', simplesmente um ardil ideológico para ocultar os interesses das grandes companhias e reduzir a intervenção do governo. A situação como está hoje não é irreversível. Ainda temos alguma privacidade e as empresas ainda podem ser controladas por meio de regulamentos inteligentes. Mas precisamos parar de pensar na internet em primeiro lugar como um mercado e depois como um fórum público. O que falta, há muito tempo, é um reexame fundamental da primazia das dimensões cívicas da internet. Está na hora de decidir se o que queremos da internet é que seja um shopping privado ou uma praça pública".
A outra esfera de controle é num campo bem mais particular: o cérebro. Sue Halpern, do The New York Review of Books, analisou três obras para tentar apontar qual será o caminho da fusão homem-máquina. Partindo de um defensor da ideia de instalar computadores intracerebrais em todos, para que a internet "seria parte integral do ser humano e seu uso seria tão natural quanto o de nossas próprias mãos", Sue chega a um ponto extremo: a fusão do cérebro com a máquina pode criar um sistema totalitário.

