Entre muitos cheiros e muitas cores está a panóplia de sabores das sandes e sumos da banca de Ricardo Nogueira no Mercado da Graça, em Ponta Delgada. Podia ser apenas mais um comerciante daquele espaço histórico desta cidade quinhentista, mas não o é. E porquê?

Porque aos 34 anos carrega a vivência de que “não há empregos para a vida”. Esteve na Universidade de Coimbra, fez a licenciatura em Engenharia Civil e está inscrito na Ordem dos Engenheiros.
Foi durante alguns anos “o Sr. Engenheiro”, título que ninguém o tira, mas a crise afectou a construção civil e atirou-o para o desemprego. Tentou durante algum tempo encontrar colocação em empresas do continente só que não estava fácil. A mulher, natural de Santa Maria, médica de profissão, tinha colocação em qualquer ponto do país, e a solução encontrada por ambos foi a de viver nos Açores, região onde podia haver emprego para Ricardo Nogueira na sua área de formação, mas que não houve. “A situação de desemprego que encontrei aqui era a mesma que se vivia no continente”.

Só que Ricardo Nogueira podia ter partido para as ex-colónias portuguesas, como Brasil e/ou Angola, onde emprego garantido havia, tal como outras colegas de profissão o fizeram. Mas, o amor falou mais alto e pela paixão que tinha, e tem, à mulher, não quis partir. “Hoje temos um filho com dois anos, nascido nos Açores e sinto que estou em casa. Nasci em Leiria mas sintome muito feliz por viver nos Açores com a minha mulher e com o meu filho.

Já conhecia os Açores, porque as minhas férias enquanto estudante universitário eram passadas em Santa Maria com a minha namorada, hoje minha mulher. Estava sempre à espera que as aulas terminassem para vir passar férias cá”. A mudança para a ilha foi um processo natural.
Conta-nos Ricardo Nogueira que enquanto procurava emprego, a mulher desafiou-o a fazer um curso de Cozinha na Escola Hoteleira e de Turismo. Candidatou-se e ficou como suplemente. “Um dia chamaram-me. Fiz o curso de cozinheiro. Sou cozinheiro diplomado.

Trabalhei no Restaurante Anfiteatro durante um ano mas cheguei à conclusão que embora goste de cozinhar – embora a minha mulher cozinhe mais e melhor do que eu - ser cozinheiro num restaurante de top, e com pressão, não é para mim. Então decidi montar o meu negócio nesta área da restauração num espaço que gosto muito que é o Mercado da Graça e onde espero ficar”.

Contudo, o Mercado da Graça não oferece as melhores condições para quem quer ter uma banca que ofereça novidades culinárias. “Tento fazer o meu melhor com os produtos dos Açores. Uso os produtos que estão à venda no Mercado, desde o bolo lêvedo com mel, nozes e queijo de são Jorge aos sumos de ananás, laranja e banana. Utilizo muito a fruta da época.

Tento inovar sempre, só que não posso aqui oferecer comida quente porque não há condições”. E não há mesmo o melhor ambiente para estar no Mercado da Graça. Quintafeira, quando estávamos à espera que Ricardo Nogueira limpasse as suas ferramentas de trabalho e atendesse uma cliente, o vento que se fazia sentir até derrubava as caixas, que Ricardo a pouco-e-pouco levantava.

É um espaço desconfortável. Só que Ricardo Nogueira, embora reconheça que assim é, limitase a dizer que há um projecto para o Mercado, esperando assim que um dia o Mercado permite que faça a sua banca de sonho para ofercer iguarias com as suas técnicas de cozinheiro. Enquanto isso não acontece vai de banca em banca comprando os melhores produtos dos Açores para construir com “um toque pessoal” as sandes que confecciona para turistas e locais e com sumos regionais, pela fruta que usa, mas com originalidade.

O Mercado da Graça podia ser um espaço de grande procura como se verifica na nossa vizinha ilha da Madeira, do Porto de vários países da Europa. A localização do Mercado da Graça é excelente mas há que dar um novo visual e uma nova ordem para que possa ser um espaço de excelência e não um espaço de consumo fugaz. É isso que Ricardo Nogueira também gostaria de ter, embora como a sua banca é móvel pode fazer pequenas tournées pela ilha. “Estive nas festas do Senhor Santo Cristo mas não é o meu público, mas também estive no Festival Tremor e este sim é o meu público-alvo”. Enquanto descobre por onde pode andar a vender, questionamos se não gostaria de voltar à Engenharia Civil, a que peremptoriamnete responde:

“Isso ficou na outra vida. Se for preciso tenho o diploma e vou trabalhar mas gosto de fazer o que estou a fazer”.
Como cidadão observa que o sector turístico nos Açores está em franco desenvolvimento e consequentemente isso tem reflexos no comércio.

“Para mim é óptimo, porque as vendas aumentam. No entanto, qualquer pessoa enquanto turista espera ser bem recebido no sítio onde vai e esse, entendo, é o papel que me cabe a mim enquanto comerciante. Gosto de o fazer e faço-o porque acho que tem de ser feito.

Apesar de muitos turistas esperarem que falemos francês ou alemão, eu falo inglês e algum espanhol e tento sempre ajudar no que precisam”. O turista é uma mais-valia para os dias menos movimentados da semana, que vão de Segunda a Quinta-feira, e dão vida à banca
deste empreendedor.

Ao nível local, Ricardo Nogueira, que se instalou no Mercado da Graça há um ano, já tem alguns clientes fiéis. Os melhores dias são a Sexta-feira e Sábado, porque é tradição fazerem as compras nos últimos dias da semana, com produtos frescos. Durante a semana os clientes são essencialmente as pessoas que trabalham perto do mercado, que já ligam a encomendar as suas sandes e sumos naturais, para que na hora do almoço não percam tempo à espera”.

“A felicidade mora aqui”, como diz o velho ditado popular.

Fonte: Correio dos Açores